Proteína por refeição: o teto é maior do que se pensava: o que o estudo de Trommelen et al. (2023) realmente mostrou

Por Dr. Fábio Rodrigues Figueiredo — Médico e Engenheiro Agrônomo

Você já ouviu que o corpo só aproveita 20 a 25 g de proteína por refeição? Essa crença, repetida por anos em academias e manuais de nutrição, caiu por terra com o estudo de Trommelen et al. (2023), que mostrou que o teto máximo de proteína por refeição é muito maior do que se imaginava.

A recomendação de que qualquer excesso de proteína seria “oxidado” ou simplesmente eliminado sempre pareceu fazer sentido intuitivo. Mas a ciência tem mostrado que o metabolismo proteico é mais complexo — e mais plástico — do que supúnhamos.

Vou apresentar aqui o que o estudo mais impactante dos últimos anos realmente demonstrou, quais as limitações que você precisa conhecer e como aplicar esses achados na prática.


O estudo que mudou a conversa sobre proteína

Publicado em dezembro de 2023 na Cell Reports Medicine (um dos periódicos mais conceituados da área), o estudo conduzido por Trommelen, van Loon e colaboradores investigou a resposta anabólica à ingestão de proteína durante a recuperação do exercício em 12 adultos jovens saudáveis.

O desenho foi engenhoso: os participantes realizaram uma sessão de exercício resistido de corpo inteiro e, em seguida, receberam 0 g (placebo), 25 g ou 100 g de proteína intrinsecamente marcada com isótopos estáveis. A novidade metodológica foi o uso de proteína intrinsecamente marcada — ou seja, a proteína em si continha marcadores isotópicos, permitindo rastrear com precisão absoluta para onde cada aminoácido ingerido estava indo.

A coleta de amostras de sangue e tecido muscular foi feita ao longo de 12 horas — um período de observação muito superior aos estudos anteriores, que geralmente monitoravam apenas 3 a 6 horas.

Os resultados foram surpreendentes:

  • Ingestão de 100 g de proteína resultou em aumentos significativamente maiores na síntese proteica muscular (SPM) quando comparada a 25 g
  • A resposta anabólica não mostrou platô — não houve limite superior detectável para a incorporação de aminoácidos no tecido muscular
  • A duração da resposta foi prolongada: enquanto 25 g elevavam a SPM por aproximadamente 4-5 horas, 100 g mantinham a SPM elevada por mais de 12 horas
  • A oxidação de aminoácidos foi negligenciável, mesmo com a dose mais alta — contrariando a crença popular de que o excesso de proteína é simplesmente queimado
  • A síntese proteica sistêmica (proteínas plasmáticas e do tecido conjuntivo) também respondeu de forma dose-dependente

A descoberta central foi que não existe teto máximo para a resposta anabólica — mesmo 100 g de proteína em uma única refeição ainda estimulam síntese proteica muscular de forma significativa, apenas com uma duração prolongada em vez de uma magnitude maior em pico.


Por que esse resultado contradiz estudos anteriores?

Estudos clássicos, como o de Moore et al. (2009) no American Journal of Clinical Nutrition, sugeriam que 20 g de proteína eram suficientes para maximizar a SPM no pós-exercício, sem benefício adicional com 40 g. Esses estudos consolidaram a crença do “teto de 20-25 g por refeição”.

Três diferenças metodológicas explicam a aparente contradição:

FatorEstudos Clássicos (Moore et al.)Trommelen et al. (2023)
ExercícioIsolado (extensão de perna)Corpo inteiro (mais massa muscular recrutada)
Período de observação4-6 horas12 horas
Dose máxima testada40 g100 g
Marcação isotópicaPadrãoProteína intrinsecamente marcada

O estudo de Trommelen usou exercício de corpo inteiro, recrutando significativamente mais massa muscular. Quando mais músculos são estimulados, a capacidade de utilizar aminoácidos circulantes aumenta proporcionalmente. Além disso, o período prolongado de observação capturou algo que estudos anteriores perdiam: a resposta anabólica não é mais alta em pico, mas se mantém por muito mais tempo com doses maiores.

Isso muda a forma como entendemos a cinética da síntese proteica. Não se trata de um interruptor liga/desliga, mas de um processo que continua enquanto houver substrato disponível — especialmente quando o estímulo do exercício foi suficientemente abrangente.


O que isso significa para a hipertrofia na prática?

A interpretação mais relevante não é que você precisa consumir 100 g de proteína por refeição, mas sim que o conceito de “teto” precisa ser revisto sob certas condições.

Em termos práticos:

Para a maioria das pessoas, 30-40 g por refeição ainda é uma faixa segura e eficiente. A dose de 100 g testada no estudo é um experimento controlado, não uma recomendação dietética. O custo financeiro, a digestibilidade e o conforto gastrointestinal tornam doses muito altas impraticáveis no dia a dia.

Mas o estudo mostra que, sob condições específicas — exercício de corpo inteiro de alta intensidade, indivíduos com grande massa muscular, períodos prolongados de recuperação — doses maiores podem ser melhor aproveitadas do que se pensava. Um atleta de 100 kg com alto volume de treino pode se beneficiar de refeições com 50-60 g de proteína, especialmente na refeição pós-treino.

A distribuição ao longo do dia continua sendo o fator mais importante para a hipertrofia. Um estudo de Areta et al. (2013) demonstrou que 80 g de proteína distribuídos em 4 doses de 20 g a cada 3 horas resultaram em SPM 31% maior que as mesmas 80 g divididas em 2 doses de 40 g a cada 6 horas. O padrão de alimentação frequente ainda é superior para a maioria dos objetivos.

A resposta anabólica prolongada com doses maiores pode ser particularmente relevante no período de sono. Consumir uma dose substancial de proteína (30-40 g de caseína) antes de dormir mantém a SPM elevada durante as 7-8 horas de sono — um período em que o músculo está em jejum prolongado. Isso é consistente com a lógica do estudo de Trommelen: doses maiores sustentam a SPM por mais tempo.


E a preservação de massa magra em dieta hipocalórica?

Em janeiro de 2026, Dietvorst et al. publicaram no Clinical Nutrition ESPEN um estudo que complementa esses achados. Pesquisadores holandeses compararam restrição calórica contínua vs intermitente por 3 meses em pacientes com diabetes tipo 2 e sobrepeso.

Os resultados são particularmente relevantes para quem busca emagrecer sem perder massa muscular:

  • Ambos os grupos aumentaram a massa livre de gordura (restrição contínua: de 59,6% para 64,9%; intermitente: de 61,5% para 64,1%)
  • A massa gorda reduziu significativamente em ambos os grupos
  • A taxa metabólica de repouso diminuiu significativamente apenas no grupo de restrição calórica contínua (de 2.006 para 1.820 kcal/dia), enquanto o grupo de jejum intermitente a preservou
  • A taxa de abandono foi de 19% na restrição contínua e 0% no jejum intermitente — diferença estatisticamente significativa

A mensagem principal: a preservação muscular durante o emagrecimento depende mais da ingestão proteica total adequada (1,6-2,2 g/kg/dia) e do treino de resistência do que do padrão alimentar específico. A vantagem do jejum intermitente parece estar mais na adesão e na preservação do gasto energético de repouso do que em um efeito metabólico especial.


O papel da leucina e o limiar de ativação do mTOR

A leucina é o aminoácido-chave para ativar a via mTORC1, o principal regulador da síntese proteica muscular. O conceito de “leucina threshold” estabelece que cada refeição precisa conter aproximadamente 2,5 a 3 g de leucina para maximizar a SPM.

Uma revisão da Frontiers in Nutrition (Layman, 2024) explorou os impactos da quantidade e distribuição de proteína na composição corporal. Os principais achados:

  • A distribuição equilibrada de proteína (3-4 refeições com pelo menos 30 g cada) resulta em 30-45% mais SPM ao longo do dia comparada à distribuição desigual
  • Em estudos com ratos, a distribuição balanceada produziu músculo 10% maior que a distribuição desigual (toda proteína concentrada no jantar), mesmo com a mesma ingestão total de proteína e calorias
  • Em humanos, a perda de massa magra durante o emagrecimento foi 25-40% menor nos grupos com maior ingestão proteica distribuída ao longo do dia

A recomendação prática: cada refeição principal deve conter pelo menos 30-40 g de proteína de alta qualidade (para atingir ~3 g de leucina), e a distribuição deve ser a mais uniforme possível entre café da manhã, almoço e jantar.


Aplicação prática baseada em evidências

A síntese das evidências atuais — de Trommelen (2023) às meta-análises de distribuição proteica — permite estabelecer diretrizes claras:

1. Dose por refeição: 0,4-0,55 g/kg por refeição. Para um homem de 80 kg, isso equivale a 32-44 g por refeição. Para atletas de alto volume, o limite superior da faixa é mais adequado.

2. Distribuição: 4-5 refeições proteicas ao dia, espaçadas a cada 3-5 horas. A distribuição uniforme é mais importante que a dose absoluta de qualquer refeição isolada.

3. Proteína total diária: 1,6-2,2 g/kg/dia. Este é o fator mais determinante para hipertrofia, responsável por aproximadamente 13,4% da variância nos ganhos musculares, comparado a apenas 1,66% do timing pós-treino (meta-análise de Schoenfeld, Aragon & Krieger, 2013).

4. Proteína pré-sono: 30-40 g de caseína 30 minutos antes de dormir aumenta a SPM noturna em aproximadamente 22%.

5. Fonte proteica: Proteínas de origem animal (whey, caseína, ovo, carne) têm DIAAS mais alto e maior densidade de leucina. Para dietas baseadas em vegetais, é necessário aumentar a dose para 35-50 g por refeição para compensar o perfil aminoacídico.


Minha visão honesta como médico

1. O estudo de Trommelen é um marco, mas não uma revolução prática. Ele corrige um dogma científico — o “teto de 25 g” — mas não significa que você precisa sair consumindo 100 g de proteína por refeição. A contribuição mais valiosa é mostrar que a duração da resposta anabólica é tão importante quanto o pico.

2. A distribuição ainda supera a dose isolada. A evidência é consistente: distribuir bem a proteína ao longo do dia é mais eficaz que concentrar em uma ou duas refeições.

3. O contexto do treino determina o aproveitamento. Quanto maior a massa muscular recrutada durante o exercício, maior a capacidade de utilizar aminoácidos. Treinos de corpo inteiro justificam doses maiores na refeição pós-treino.

4. Proteína total é o fator mais importante. Antes de otimizar dose por refeição, timing ou distribuição, garanta que a ingestão total está dentro da faixa de 1,6-2,2 g/kg/dia.

5. Adesão e individualização sempre vencem. A estratégia ideal é aquela que o paciente consegue manter consistentemente, não a que tem o melhor desenho teórico.


Perguntas Frequentes

Preciso comer 100 g de proteína no pós-treino agora?

Não. O estudo de Trommelen mostrou que doses maiores são aproveitadas, não que são necessárias. Para a maioria das pessoas, 30-50 g no pós-treino (dependendo do peso corporal e volume de treino) é suficiente.

Existe algum risco em consumir muita proteína em uma refeição?

Para indivíduos saudáveis, não há evidência de dano renal ou hepático com ingestão proteica elevada. O desconforto gastrointestinal é o limitador prático mais comum.

Proteína vegetal funciona igual?

Funciona, mas requer doses 30-50% maiores para atingir o mesmo estímulo de leucina.


Referências:

  1. Trommelen J, et al. The anabolic response to protein ingestion during recovery from exercise has no upper limit in magnitude and duration in vivo in humans. Cell Reports Medicine. 2023;4:101324. Ver no PubMed →
  2. Moore DR, et al. Ingested protein dose response of muscle and albumin protein synthesis after resistance exercise in young men. Am J Clin Nutr. 2009;89(1):161-168. Ver no PubMed →
  3. Schoenfeld BJ, Aragon AA, Krieger JW. The effect of protein timing on muscle strength and hypertrophy: a meta-analysis. J Int Soc Sports Nutr. 2013;10:53. Ver artigo →
  4. Areta JL, et al. Timing and distribution of protein ingestion during prolonged recovery from resistance exercise alters myofibrillar protein synthesis. J Physiol. 2013;591(9):2319-2331. Ver no PubMed →
  5. Layman DK. Impacts of protein quantity and distribution on body composition. Front Nutr. 2024;11:1388986. Ver artigo →
  6. Dietvorst CAW, et al. The effect of continuous or intermittent calorie-restricted diet on body composition and resting energy expenditure in patients with type 2 diabetes. Clin Nutr ESPEN. 2026. Ver artigo →
  7. Stokes T, et al. Recent perspectives regarding the role of dietary protein for the promotion of muscle hypertrophy with resistance exercise training. Nutrients. 2020;12(6):1742. Ver no PubMed →

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Resumindo

  • Trommelen et al. (2023) mostrou que não existe teto máximo para a resposta anabólica — 100 g de proteína ainda estimulam SPM, apenas com duração prolongada;
  • A dose prática recomendada é 0,4-0,55 g/kg por refeição, distribuída em 4-5 refeições ao dia;
  • Proteína total (1,6-2,2 g/kg/dia) é 8x mais importante que o timing pós-treino;
  • Distribuição uniforme supera dose isolada: mesmo total distribuído em 4 refeições rende 31% mais SPM;
  • Durante o emagrecimento, proteína adequada + treino de força preservam massa magra.

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